“Farraneja”: Emendas Pix proporcionam um show (de horrores)
Alto escalão do sertanejo é favorecido pela manobra
As recentes revelações em relação às emendas Pix, mostram que, definitivamente, o Brasil não é para amadores. Enquanto milhares de artistas de pequeno porte batalham diariamente para fechar as contas do mês, nomes consagrados se apresentam em pequenos municípios, segundo o Ministério Público, que não contam com o mínimo de infraestrutura, seja na área da saúde, educação ou mesmo saneamento básico. Os cachês, milionários, são pagos com as chamadas emendas Pix, transferências parlamentares de uso livre enviadas por deputados federais e estaduais às prefeituras.
A prática, por mais surpreendente que seja, não é ilegal. E não é de hoje. Em matéria publicada na revista Isto É, em meados de 2022, já denunciava a prática em estados como Alagoas e Rio Grande do Sul.
No mês passado, vários veículos noticiaram a “farraneja” (a esmagadora maioria dos shows é do gênero sertanejo, apesar de aparecerem nomes de outros ritmos, como forró, e até o de um padre famoso, uma espécie de influencer do reino dos céus), em pequenas cidades do estado de Minas Gerais. Os números impressionam. “Levantamento do Núcleo de Dados do Estado de Minas, com base em informações do Congresso Nacional, da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e do Tribunal de Contas, mostra que 91 prefeituras mineiras usaram recursos de emendas Pix para financiar shows desde 2023, totalizando R$ 34,9 milhões em 251 depósitos distintos. Alguns pagamentos foram parcelados devido ao valor elevado dos cachês. O levantamento do EM ainda revela que 33 cidades sem hospital gastaram R$ 8,1 milhões com artistas renomados, a maior parte do gênero sertanejo”, revela artigo do jornal Estado de Minas.
A destinação dos recursos, por parte dos prefeitos, é livre. Os parlamentares liberam a verba e os alcaides decidem o que fazer com ela. Claro que um artista famoso rende mais votos que um posto de saúde ou uma escola. Faz parte do jogo político e da ingenuidade de grande parte do eleitorado.
Mesmo após as denúncias desse “show de horrores” com dinheiro público, há quem ainda defenda a prática. Numa reedição de comentário infeliz de Ronaldo Fenômeno antes do mundial sediado no Brasil, em que alegava que “Copa do Mundo não se faz com hospital, mas com estádios”, alguns prefeitos são entusiastas da “farraneja”. “Saúde é prioridade, mas tem outras coisas também”, justificou o mandatário de um pequeno município mineiro, com pouco mais de 10 mil habitantes, que recebeu e gastou R$ 600 mil com shows.
O mais surreal de tudo isso é a reação de boa parte da população brasileira. Divididas entre esquerda e direita, as pessoas parecem não ter opinião própria e se comportam como torcedores organizados. Os mesmos que vivem criticando a Lei Rouanet, se calam diante do descalabro das emendas Pix. Desconhecimento ou falta de vergonha na cara? Tire suas conclusões.
Carlos Guerra

