Só Dori Caymmi se incomoda com o cenário musical do país?

Em entrevista recente, músico afirma: “Música brasileira está doente, com tanto mau gosto”

Não é preciso vir de uma tradicional e aplaudida família de musicistas, como Dori Caymmi, para perceber que o momento da música brasileira é o pior de todos os tempos. É necessário apenas ter um pouco de discernimento e, principalmente, a coragem de vir a público externar o que todos já sabem. 

Cantor, compositor, violonista e arranjador, Dori é conhecido por seu talento e também por não ter receio em expor o óbvio ululante. O título de seu mais recente álbum, “Utopia”, é de uma ironia ímpar. 

Suas colocações, em recentes entrevistas aos veículos “Folha de São Paulo” e “O Globo”, são duras e extremamente coerentes. Aos 82 anos, o músico deixa claro que não precisa de seguidores, não irá fazer espetáculos de pirotecnia em shows (leia-se dançarinas em roupas mínimas), não pensa em fazer música comercial, nem tampouco formar uma dupla sertaneja com o irmão. 

Não à toa, a citação ao gênero mais ouvido no país é mais uma pitada de acidez do músico em relação ao mercado de hoje. Afinal, com tantos lançamentos diários no segmento, com tanta coisa igual, numa escala de produção industrial, como é possível manter um mínimo de qualidade? Pura utopia, mais uma vez. Um amigo meu já dizia: “Pra ficar ruim tem que melhorar bastante”.

Em tempos de aberrações que ganham a mídia, como o tal “Caneta Azul”, temos a previsão de um futuro ainda pior. Mas qual o motivo de apenas Dori Caymmi se incomodar com isso? Outros artistas estão satisfeitos com esse cenário? Falta coragem? O risco de cancelamento conta? Perguntas que não querem calar. 

Mas o que muda com o grito solitário de Caymmi? Não sejamos utópicos, digo que absolutamente nada. Mas leva a refletir, para quem tem pelo menos dois neurônios, de como é fácil manipular multidões.

E aí cabe mais uma crítica. A imprensa, que teria o papel de questionar esse tipo de situação, faz o papel inverso: dá voz e espaço a quem não tem absolutamente nada a oferecer. Fantoches de uma sociedade degradada em termos de cultura. Enquanto as livrarias fecham, portais de notícias destacam como foi o final de semana de uma subcelebridade na praia ou detalham o mais novo romance entre um cantor (do qual não conheço nenhum sucesso, apenas aqueles de seu pai) e uma intérprete criada em laboratório. E os programas de auditório de domingo, bizarrices que ainda insistem em existir, disseminam esse conteúdo tosco, vetores de uma pandemia de emburrecimento nacional.

Senhoras e senhores, enfim, concordo com Dori sobre a música brasileira. E vejo uma situação ainda mais grave. Ela está doente sim, internada em UTI. E respira por aparelhos. Há cura? Difícil responder, tamanha a enfermidade. Um bom começo seria ter mais gente competente, crítica e sincera como Dori Caymmi. 

Carlos Guerra

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